05 Jun
05Jun

Por Daniel Christian Henrique e João Vitor Savi (bolsista de extensão Probolsas)

As trágicas enchentes no Rio Grande do Sul trouxeram grande devastação ao estado, destruindo moradias, comércios, empresas e até mesmo algumas cidades quase que inteiramente. No cenário Agro do Brasil, o estado ainda tem como um de seus destaque o cultivo do arroz, sendo em grande vantagem o maior produtor do país, produzindo em 2022 um total de 7,67 milhões de toneladas e um valor de produção de R$ 11 bilhões aproximadamente. Santa Catarina é o segundo colocado nacional, mas com distante valores de 1,19 milhões de toneladas de produção no mesmo período (IBGE).

Frente a esta vasta produção, de imediato surgiu adicionalmente a preocupação de aumento drástico do preço do arroz e seu impacto nos menos favorecidos economicamente em todo o país. Felizmente, segundo o Instituto Rio Grandense de Arroz, o estado já havia colhido até final de abril cerca de 78% de sua safra, porém sofreriam atrasos para entrega do restante (IRGA). A preocupação do governo, por sua vez, foi grande com um possível desabastecimento, com a segurança alimentar dos brasileiros e até com alguma alta abrupta dos preços (principalmente através de especulações), levando-o a zerar o imposto de importação de três variedades de arroz (Secretaria de Comunicação Oficial - Governo Federal (a), Conab). Foram autorizados a importação de 1 milhão de toneladas de arroz pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), feitas por sistemas de leilão gradativos (justificado pelo governo que desta forma não prejudicaria os agricultores). O primeiro leilão de 300.000 kilos de arroz beneficiado importado (tipo 1) com preço máximo de R$ 4,00 o kilo ao consumidor brasileiro já está agendado para semana que vem (Conab, Canal Rural, Secretaria de Comunicação - Governo Federal (b)).

A iniciativa do governo, todavia, não foi bem vista pela Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) e outras associações do setor rural. Argumentam que não vêm possibilidade da falta de arroz no mercado nacional pois a safra foi de 7,1 milhões de toneladas, equivalente à do ano passado (7,239 milhões), com uma quebra prevista na produção de 200.000 toneladas, não sendo necessário a importação de 1 milhão de toneladas. Debatem, aditivamente, que este subsídio deveria ser dados aos próprios agricultores do RS como estímulo à retomada da produção e das perdas geradas nas colheitas (CNA, Canal Rural, AgroMais, BM&C News).

Antes que o primeiro leilão ocorra na semana que vem, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), protocolou neste começo de mês, 03 de junho, uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a decisão de importação de arroz do governo, alegando que tal atitude é inconstitucional e irá prejudicar financeiramente ainda mais os agricultores da região, a economia gaúcha já combalida com as enchentes e que os grãos já estão colhidos e armazenados (CNA, Canal TerraViva).

Neste contexto, independente da necessidade atual ou não da importação de arroz, o GPFA notou ser importante realizar uma simulação de uma quebra na produção de arroz no RS frente as intempéries climáticas que se iniciaram no país e no mundo, podendo ser útil para análises do contexto atual ou do futuro, gerando os seguinte objetivos:

- Analisar o impacto contemporâneo e defasado das elevações nos preços da saca de arroz produzido no estado do Rio Grande do Sul sobre o preço médio das cestas básicas nas capitais brasileiras.

- Analisar a força que a elevação do preço da saca de arroz produzido no estado do Rio Grande do Sul pode ocasionar nos aumentos do preço médio das cestas básicas nas capitais brasileiras e por quanto tempo permanece no futuro.

Os dados das séries temporais das cestas básicas das capitais brasileiras foram coletadas em períodos mensais no Departamento Intersindical de Estatística e Estudo Econômicos (Dieese) e agrupadas em uma única série no formato de média. Quanto a série temporal dos preços da saca de arroz em casca no Rio Grande do Sul, foi obtida no Cepea/Esalq/USP, também em períodos mensais. O período dos dados comporta janeiro de 2014 a abril de 2024.

Para consecução destes propósitos, foram desenvolvidos dois procedimentos. Para a relação contemporânea (para análises de impactos no próprio mês) entre as variáveis foi desenvolvida uma regressão simples. Quanto a relação defasada (para análise de impactos com atraso de meses), optou-se pela metodologia dos Vetores Autorregressivos (VAR). As variáveis foram alocadas da seguinte forma:

Variável dependente (Y) = preço médio das cestas básicas das capitais brasileiras

Variável independente (X) = preço do arroz no Rio Grande do Sul por saca de 50 kg - tipo 1 à vista

Análise com período contemporâneo

Para este primeiro propósito, abordou-se na regressão simples os dados em nível, sem a necessidade de diferenciação, obtendo-se a seguinte equação preditiva e gráfico de dispersão:

Observa-se que o coeficiente do arroz obteve aprovação no teste t e a equação foi aprovada no teste F, ambos iguais a zero. Aditivamente, os resíduos se demonstraram normais ao acatar um p-value de 0,079 no teste Kolmogorov-Smirnov. Portanto, a equação pode ser utilizada para gerar previsões de variação do preço do arroz no RS e seu impacto no preço médio das cestas básicas, com bom poder preditivo defronte seu R-square igual a 76,78%

Conclusões para análise contemporânea:

Simulando uma possível quebra e elevação nos preços do arroz produzido no Rio Grande do Sul, as seguintes projeções foram feitas a partir da equação preditiva gerada:

- O aumento de R$ 1,00 no preço da saca de 50 kg de arroz produzido no Rio Grande do Sul, eleva o preço médio das cestas básicas das capitais brasileiras em R$ 4,67 no mesmo mês

- Considerando que o preço médio do arroz entre março e abril de 2024 estava aproximadamente R$ 100,00 (arredondando para facilitar), pode-se fazer as seguintes previsões para os preços médios das cestas básicas nas capitais brasileiras dentro do próprio mês para aumentos nos preços da saca de 50 Kg de arroz do RS:

Preços da Saca de Arroz 50 KgPreços da Cesta Básica
Aumento percentual/reaisTotalTotal
(10% / R$10,00) R$         110,00 R$           709,97
(20% / R$20,00) R$         120,00 R$           756,67
(30% / R$30,00) R$         130,00 R$           803,36
(40% / R$40,00) R$         140,00 R$           850,05
(50% / R$50,00) R$         150,00 R$           896,74

Análise com defasagem temporal

Para consecução deste segundo objetivo, as séries precisavam obter estacionariedade. O teste Dickey Fuller-Aumentado (ADF) reprovou ambas variáveis, necessitando realizar uma diferença para obter suas aprovações com p-value inferior a 0,01. Em sequência, os testes de tamanho de defasagem foram aplicados entre 1 e 6 meses de atraso na relação de dependência. O único que obteve aprovações mais significativas de seus coeficientes, Causalidade de Granger, Decomposição da Variância e Função Impulso-Resposta foi o VAR de 1 lag (1 mês), sendo esta a defasagem escolhida. A equação preditiva gerada é apresentada a seguir:

O coeficiente do arroz e a equação foram aprovados, respectivamente, no teste t e no teste F, considerando um nível de significância de 10%. Todavia, para reforçar a validade final da equação, foram aplicados os testes padrões para séries temporais. 

O teste de Causalidade de Granger (p-value = 0,064) indica a reprovação da hipótese nula de não causalidade e consequente aceitação da hipótese alternativa de causalidade entre as variáveis. O teste da Decomposição da Variância, por sua vez, aponta uma explicação de 4,54% da variância da equação do preço médio da cesta básica após choque positivo na equação do preço do arroz, que pode ser considerado um valor relevante. 

Diante da aceitação final da equação, aplicou-se a Função Impulso-Resposta (FIR) a fim de prever a força que o preço do arroz exerce no preço médio da cesta básica e por quanto tempo perdura no futuro após. Para tanto, aplicou-se um choque positivo de 1 desvio-padrão nos resíduos da equação preditiva do preço do arroz, gerando lastros nos resultados da equação preditiva do preço médio da cesta básica, decorrida a dependência desta última com a primeira:

Conclusões para análise com defasagem temporal:

- Aumentos no preço da saca de arroz de 50 kg do Rio Grande do Sul elevam o preço médio das cestas básicas nas capitais brasileiras com 1 mês de atraso. Assim, um aumento do preço da saca de arroz no RS no atual mês também irá elevar o preço médio das cestas básicas nas capitais brasileiras no mês seguinte (além de elevar no próprio mês atual, como visto na relação contemporânea com a regressão simples), podendo perdurar essa elevação por alguns meses.

- E por quanto tempo este aumento do preço médio da cesta básica permanecerá? Após a simulação de uma elevação do preço da saca de arroz de 50 kg do Rio Grande do Sul no mês atual (sem futuras elevações), observou-se a previsão de uma elevação do preço médio das cestas básicas nas capitais brasileiras por até oito meses no futuro. Há uma forte elevação do preço médio por até dois meses, iniciando em sequência seu regresso e volta ao seu preço inicial no oitavo mês futuro.

Referências: AgroMais, BM&C News, Canal Rural, Canal TerraViva, Conab, CNA, Cepea/Esalq/USP, Dieese, IBGE, IRGA, Secretaria de Comunicação Oficial - Governo Federal (a), Secretaria de Comunicação - Governo Federal (b)

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