20 May
20May

Por Daniel Christian Henrique, João Vitor Savi (bolsista de extensão Probolsas), Sabrina Knoll Godoy Ilha, Fabio Augusto Dittrich e Eduardo Ferraz Lodi 

O ano de 2019 (hoje conhecido como pré-pandêmico) vinha comemorando seus dados de empregabilidade, com aumento de 1,9% no número de pessoal ocupado (923 mil mais a mais no comparativo a 2018), assim como 301 mil novas empresas e organizações ingressantes no mercado. Isso tudo gerou o maior volume contratado desde 2015. Por outro lado, essa maior empregabilidade trouxe uma queda no salário médio mensal de 3,5%. Na contabilização apenas dos empregos formais, houve baixa de 1,3% (Agência Brasil, UOL Economia).

Ingressamos em 2020 e o "meteoro caiu na terra". Pandemia da covid, lockdowns globais, fechamento de muitas empresas e serviços. Para piorar a situação, as demissões mais massivas recaíram exatamente nos trabalhadores mais vulneráveis, com baixos salários ou na informalidade (Exame). Para evitar um colapso no mundo, vieram em meados do ano auxílios emergenciais em 151 países do mundo aos mais vulneráveis economicamente (Marins et al, 2021). 

Segundo dados do IBGE, no Brasil o número de assalariados retrocedem em 2020 cerca de 1,8% no comparativo a 2019, com a também queda em 6% na massa salarial (a maior queda desde 2013). Quanto a valores de salário médio, no mesmo período, houve queda de 3% (Jornal do Comércio Amazonas). Cabe destacar, todavia, que o segmento mais afetado foram os serviços e comércios, frente ao continuo da produção ainda necessário das indústrias dentro de novas rotinas de higiene e distanciamento social nos seus processos produtivos.

O ano de 2021 surge com uma luz no fim do túnel frente aos avanços da vacinação contra as cepas do covid mundo afora, com consequente fim dos lockdowns e retomada das atividades presenciais de trabalho. Há uma forte retomada da empregabilidade até início de 2022, quando atinge novamente o patamar pré-pandemia (Ripani, Banco Mundial). Mas, ao contrário do que se esperava, os salários médios caem 8,3% no comparativo a 2020, alavancando os trabalhos informais (CNN Brasil). 

Frente as grandes disparidades regionais de nosso país continental, como os volumes de contratação e variações salariais por estado teriam se comportado, comparativamente? Frente a toda essa intempérie entre empregabilidade e salários, surge o objetivo central deste estudo:

Avaliar comparativamente, entre os anos de 2019 (pré-pandemia) a 2021 (pandemia), os impactos que o número de pessoal ocupado e o Valor da Transformação Industrial (VTI) geraram nos salários da indústria em cada estado da nação.

Para consecução deste propósito, foram coletados os dados do Valor da Transformação Industrial (VTI) de cada estado na Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), divididos em 33 divisões industriais. No mesmo arquivo eram informados os salários totais pagos a cada divisão, assim como o número de pessoal ocupado nas mesmas. CLIQUE AQUI para ler a metodologia abordada pelo Seade na coleta dos dados. As variáveis foram, então, ordenadas para realização de regressões múltiplas, conforme a seguinte distribuição:

  • Salários Totais (em mil reais) = variável dependente Y
  • Pessoal Ocupado = variável independente X
  • VTI (em mil reais) = variável independente X

Adotou-se o procedimento de regressões múltiplas, método stepwise, eliminando se necessário alguma variável com coeficiente sem significância estatística. Para aceite da normalidade dos resíduos, foram retirados os outliers se obtivessem reprovação nos testes Kolmogorov-Smirnov ou Shapiro Test. O nível de significância adotado foram de p-values  iguais ou superiores a 0,01. Os estados no qual a normalidade não foi possível de ser obtida nos três anos de análise em suas respectivas equações preditivas após a apuração de suas regressões, foram eliminados das análises.

Em virtude do grande volume de informações e análises necessárias, este estudo será dividido e divulgado em diversos informes, por regiões geográficas do país, iniciando esta série com a região sul.

Resultados comparativos por regiões do Brasil

- SUL

- Santa Catarina

- Rio Grande do Sul

- Paraná

Conclusões quanto a formação dos salários industriais nos estados do sul:

- 2019 para 2020

  • Santa Catarina e Paraná aumentaram os valores das três variáveis, enquanto o Rio Grande do Sul regrediu sua ocupação de postos de trabalho e salários, porém aumentando o Valor da Transformação Industrial. Estes dados serão os parâmetros para as análises dos coeficientes. Portanto, o RS acompanhou as médias nacionais de queda na empregabilidade e na massa salarial ocorrida no Brasil, enquanto SC e PR seguiram mantendo estável a empregabilidade e salários de suas indústrias (apenas com um leve aumento). 
  • Cabe o destaque que a elevação do VTI do RS ocorreu principalmente em decorrência do expressivo aumento do VTI de seus segmentos industriais relacionados a fabricação de produtos do fumo (+61,9%) e fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (+29,5%). Relembrando que 2020 foi ano de ápice da pandemia.
  • Santa Catarina e Paraná regrediram seus coeficientes de VTI, mais acentuadamente o Paraná, perdendo mais da metade de seu valor. Desta forma, uma elevação em 2020 de R$ 1.000.000.000,00 (ou R$ 1.000.000 em mil) no VTI do Paraná elevou os salários totais de sua indústria no respectivo ano em R$ 67.900.000,00 (ou R$ 67.900 em mil), enquanto que uma igual elevação no VTI de Santa Catarina elevou os salários totais de sua indústria em R$ 166.600,000,00 (ou R$ 166.600 em mil), mais que o dobro do Paraná.
  • Com relação ao número de pessoal ocupado, os três estados ficaram com baixíssimas variações contratuais nas suas indústrias, todavia SC e PR obtiveram elevações, enquanto RS regrediu. 
  • Quanto aos coeficientes de pessoal ocupado (total), SC manteve um valor praticamente igual no período (passando de 15,2 para 15,3), enquanto o Paraná avançou fortemente (16,7 para 24,78). Portanto, um volume de contratações, por exemplo, de 10.000 pessoas totais em suas indústrias no ano de 2020, elevou mais os salários destes trabalhadores no PR, chegando a aumentos de R$ 247.800.000,00 (ou R$ 247.800 em mil) nos salários totais pagos no estado no respectivo ano. 
  • O RS reduziu seu volume de pessoal contratado, amenizado pela redução do valor em seu coeficiente de pessoal ocupado (22,16 para 20,67). Desta forma, por exemplo, uma demissão de 10.000 pessoas em 2020, gerou uma redução de R$ 206.700.000,00 (ou R$ 206.700 em mil) nos seus salários totais pagos neste ano nas indústrias do estado.

- 2020 para 2021

  • Os três estados do sul do país aumentaram seus valores totais nas três variáveis em análise. Estes dados serão os parâmetros para as análises dos coeficientes.
  • Apesar dos aumentos totais de VTI e salários totais, os coeficientes de VTI regrediram nos três estados, porém pouco, não de forma abrupta. Significa que uma elevação dos VTI dentre 2020 e 2021, geraram aumentos nos salários totais de suas indústrias, porém não tão acentuadamente quanto em 2020. Esse resultado é um reflexo claro do maior volume de contratações nas indústrias em 2021 (observados nos aumentos totais de pessoal ocupado nos três estados), gerando maior valor agregado produzido nas suas indústrias e consequentemente na elevação dos VTIs - mas com elevações menores dos salários frente a maior disponibilidade de mão de obra advindas do fim dos lockdowns.
  • Os coeficientes de pessoal ocupado aumentaram nos três estados. Proporcionalmente, SC obteve a menor variação percentual de seu coeficiente no período, todavia é o que detinha maior valor em 2020. O maior destaque foi o PR, saltando seu valor de 24,78 em 2020 para 32,68 em 2021. Significa que uma elevação 10.000 carteiras assinadas dentre estes anos, elevou os salários totais pagos em 2021 nas indústrias do estado em R$ 326.800.000,00 (ou R$ 326.800 em mil).

Referências: Agência Brasil, Banco Mundial, Exame, Jornal do Comércio Amazonas, Marins et al, Seade(a), Seade(b), Ripani, UOL Economia

Como citar este informativo? (padrão ABNT)

HENRIQUE, Daniel Christian; SAVI, João Vitor; GODOY-ILHA, Sabrina Knoll; DITTRICH, Fabio Augusto; LODI, Eduardo Ferraz. Evolução dos salários na indústria durante a pandemia da Covid-19: uma análise nos estados do sul dos impactos do número de pessoal ocupado e do Valor da Transformação Industrial (VTI). 2024. Desenvolvido por GPFA - Grupo de Pesquisa em Finanças Analíticas. Disponível em: https://www.gpfa.com.br/informes-extensionistas/evolucao_salarios_industrias_pandemia_regiao_sul. Acesso em: (data de seu acesso ao site).

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